Emprego novo, desafios novos, medos nada novos... Esse medo do desconhecido, friozinho na barriga, ansiedade. Meu primeiro emprego como assistente social. Tudo o que eu almejei depois de 6 anos de faculdade. Responsabilidade que vem acompanhada pela responsabilidade.
Fiquei ansiosíssima quando vi meu nome naquela pequena notinha de jornal que por pouco não me passou despercebida - "Edital de Citação". Mais ansiosa ainda quando finalmente descobri onde iria trabalhar: CREAS POP Rua, no atendimento a pessoas em situação de rua. Comentei com algumas pessoas que teria muito a estudar. A reação de algumas delas me surpreendeu: "Estudar pra trabalhar com pessoas que vivem na rua? Pra quê?"
Hoje, quando iniciei, tive minha resposta para dar para essa pergunta impertinente. Estudar para compreender, para não julgar, para tentar me livrar de pré-conceitos. Estudar para entender o que tenho que fazer e de que forma devo agir para tentar fazer algo por essas pessoas. Vale reproduzir um poema que li. O autor é um juiz. Ele escreve sobre o direito das pessoas de escolherem a rua como seu lar. Não sei ainda se concordo ou discordo, só sei que o texto me fez pensar:
Quero o direito ao inferno!
Aos “nóias” de todas as cracolândias do mundo!
Gerivaldo Neiva *
Queria peitos,
leite
beijos
colo
carinhos
afagos
brinquedos
folguedos
casa
comida
escola
ar puro
cultura
esporte
prazer
alegria
trabalho
liberdade
vida
vida plena e abundante...
Recebi, sem pedir,
fome
tapas
cascudos
murros
violência
solidão
medo
favela
periferia
esgotos
fedor
bola de pano
barraco
descaso
desprezo
abandono
promessas
exclusão
gozação
prisão
faca
revólver
morte
morte por todos os lados...
Quis e não tive.
Não quis e me impuseram.
Agora é tarde e nada me serve mais...
Devolvo,
aos que me deram,
tudo o que me deram
e que não pedi.
Eu,
(se é que ainda Sou),
sem mais nada,
não quero e nem peço mais nada.
Não quero a paz,
não quero a vida,
não quero direitos,
não quero ser salvo,
não quero o céu e nem o paraíso...
São canalhas os que querem me salvar!
São canalhas todos os bons!
São canalhas todos os santos!
Não quero ser salvo por canalhas!
Fodam-se os canalhas!
Ora, se não se autodetermina quem não é,
também não se pode,
quem quer que seja,
determinar sobre quem já não é mais.
É tarde e Inês é morta!
Agora, quero apenas meu corpo,
quero tudo o que for impuro,
quero tudo o que fede,
quero o lixo e as sarjetas,
quero todas as feridas,
quero morrer de overdose,
quero ir para o inferno!
A rua é meu inferno.
Os outros são o meu inferno.
O mundo é meu inferno.
O inferno é o meu inferno!
Eu sei o caminho das pedras!
Deixem-me....
* Juiz de Direito (Ba), membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD), em 24.01.2012. - Disponível em:< http://denisbraga1000.blogspot.com.br/2012/01/quero-o-direito-ao-inferno-poema-do.html>. Acesso em 28 mai. 2012.



